Vemo-nos por aí...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Sussurradamente

Às vezes é isto que me dá vontade, estar sentado no sofá, num domingo cinzento e de chuva, enrolado contigo, sobre a vidraça gigante de uma casa imaginária, à luz ténue e quente de um pequeno candeeiro, na moleza, a ouvir sussurradamente I think it's going to rain today, na versão de Carol Kidd.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Apontamento

Para-lá-do-mundo continua a ser a mais constante das presenças, apesar do silêncio das palavras e da ausência da cadência da escrita de outros tempos. Ainda assim, há um fio condutor que mantém coerente o mundo e, mais que isso, a memória e a história que se vai desenhando. Desde aquele janeiro frio de um primeiro post, até ao feveiro de hoje também frio, decorreram sete anos. O tempo será a única matéria comum entre o mundo que corre lá em baixo e que sempre fui espreitando e este daqui de cima, o da Torre de Nárciso, onde me escondo sempre que é preciso. Sete anos e tanta coisa incrível. Amores vieram, amores foram, músicas ouvidas, músicas esquecidas, histórias já muito irreais, sonhos vividos e outros inventados, alterados, redesenhados. Pessoas que foram ficando e outras que se foram para sempre.
Neste intervalo de tempo, muitas velocidades teve o mundo. E entre a banal tranquilidade dos dias e a volúpia das aventuras, apareceste tu, sem contar, sem procurar muito. Incrível, inesperado, cada dia mais cúmplice e mais próximo. Ah, como é bom perceber que afinal um outro mundo é possível, que uma história mais a sério, mais verdadeira, mais sentida, mais madura, é bem possível. Ah, como é bom perceber que quero que sejas o meu mundo, cada vez mais. E nesse mundo conquistar todos os outros, de mochila às costas e com os ténis novos que comprámos juntos. É por estes pequenos gestos, por tantas pequenas surpresas que já partilhámos, que tenho vontade de te graffitar todo e escrever: MEU. Possessivo? Nem pensar. Mas incrivelmente babado por poder partilhar a vida e os dias contigo. 


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Home

Há muitas formas de nos sentirmos em casa, acolhedoramente aconchegados nesse pedaço de mundo que nos protege. Há de facto muitas formas. Tu és uma delas e sem dúvida a melhor. Piegas? Pouco importa. Há mais poesia em Nós do que em séculos de erudição.


sexta-feira, 28 de março de 2014

Imutável

Vou regressando a Para-lá-do-mundo, como o filho pródigo vai regressando a casa. Há coisas que são para sempre, que fazem parte, que se colocam à pele, que são a própria pele. Há coisas que não mudam nunca, que se cristalizam para sempre, como se o mundo fosse absolutamente imutável. Absolutamente imutável. Às vezes parece, muitas vezes parece, se não imutável repetitivo. E repetitivo não é mau. Pelo contrário. Faz-nos voltar ao ponto de partida, como se alguns momentos fossem temporalmente tangíveis. É bom sentir isso. Sentir a mesma coisa. Torna o mundo imutável. Absolutamente imutável. Às vezes parece, muitas vezes parece, se não imutável repetitivo.
Hoje, pela primeira vez, instalei-me no nova torre de narciso, de onde continuo a ver o mundo. Apesar das diferenças abissais do espaço, dos objetos, como sinto exactamente a mesma coisa. E como a música me faz sentir a mesma coisa. Como consegue simultaneamente levar-me para tantas deambulações nas ruas estreitas da outra cidade e fazer-me sentir igual neste novo espaço. Ah, que sensação incrível e visceral!

O mundo é igual a si mesmo, pouco muda com o tempo. E eu, mesmo com esforço, talvez no fundo no fundo, também não mude muito. Talvez nem mude mais. Lá no fundo, na essência, não mude. Continuo a viver a tranquilidade dos dias banais, a bonomia noturna da cidade e as teclas, as mesmas teclas, sempre as mesmas teclas deste tipo que já é da casa. 


Where Breathing Starts by Tord Gustavsen Trio on Grooveshark

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Perdições

O tempo eterno rola sereno e na banal tranquilidade dos dias vamos ensaiando outras paragens. Na verdade velhas paragens onde gostamos de nos perder. A paragem dos olhares cruzados, dos sorrisos discretos, do toque leve na mão, do aconchego no sofá, do calor dos corpos, dos concertos juntos, dos planos de futuro, e de muitas saudades. Daquelas que apertam muito, mas que nunca queremos matar realmente. Que fazemos crescer de propósito. Que nos põem um sorriso tonto na cara, nos fazem acreditar que somos poetas e que até o frio do inverno é agradável. E não é?
Para-lá-do-mundo continua a ser, tanto anos depois, o refugio de tudo, essa torre de marfim de onde tantas vezes vi o mundo. Aqui o tempo corre sem tempo, sem registo, sem pressa, sem data. Corre para a frente porque o mundo gira apenas para um lado. Gira apenas para o infinito das certezas. Até lá chegar, quero perder-me tantas vezes. Se não for mais, nos teus braços. Será sempre como na primeira vez. Só tu e eu.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Saudade.

Sem necessidade de mais. Saudades do futuro! A bênção também para mim.



domingo, 18 de agosto de 2013

Há dias em que não apetece dizer nada. Há dias em que a clareza das coisas nos torna mais frágeis, mais débeis. Apenas o tempo, o verdadeiro ópio do mundo, nos dá uma noção de equilíbrio. Tudo o mais parecem retalhos, histórias que nem nos apercebemos como começam e das quais raramente, muito raramente, escrevemos o fim. Às vezes, por uma vez, era tão bom mudar o fim. 
No frio da noite, sentado na clareira mais inóspita desta montanha quase sagrada, sob o luar que cresce e se agiganta, ouço, ensurdecedor o grito do serafim e transformo-me, por instantesou não, numa espécie de sombra escura e negra. Talvez não seja mais que isso. Percorro o tempo da memória, a cristalização de tantos momentos. Só as lágrimas não cristalizam, mas secam. Vamos ficando frios e petrificados. O olhar cada vez mais negro e o mundo, esse, cada vez mais distante. 
Hoje não há formalismos nem pruridos. O texto não é poético nem fluido, fragamentado como a vida e as emoções. Não há seguimento, como as histórias também não têm. Apenas fugaz, frenético, desconexo. Nem sempre temos que respeitar as regras. Nem sempre temos que seguir as regras, nem sempre temos de ser as regras. Anarquia. 
Estava frio, muito frio. Milhares de pessoas em silêncio a ouvir o mesmo grito. Trocamos olhares e sorrimos baixinho. Cheirava a erva e a mundo. Senti-te perto, muito perto. Começaste a partir.


quinta-feira, 11 de julho de 2013

From the sky

Do céu, balbuciando lágrimas de saudade.
Do céu, contemplando perdido a devastação.
Do céu, ouvindo ainda silvos do furacão que passou.
Do céu, resignado, vendo a esperança morrer.
Do céu, ainda acordando de noite e te vendo no escuro.
Do céu, procurando o teu sorriso fácil em todo o lado.
Do céu, bailando imaginariamente, como naquela noite incrível, de improviso, num corredor escuro.
Do céu, com vontade de gritar, de correr atrás, de persistir, e de chorar...
Do céu, no céu, num qualquer céu, há vozes que cristalizam o que sentimos. Que relativizam a vida e o tempo. Que relembram a finitude de muitas coisas infinitas. Que nos fazem sentir órfãos da paixão. Que nos fazem suspirar e, enfim, continuar o caminho. É difícil não olhar para trás... 


Ave Maria (caccini) by Libera on Grooveshark

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sina em acordes diferentes

E até quando não me sais da cabeça, apesar do silêncio do tempo já não negar o inevitável, não deixo de esperar um sinal de ti. É ainda impossível não esperar aquela mensagem que me fará largar tudo nesse exacto momento, qualquer que seja a sua importância, e correr desenfreadamente para aquele beijo louco que vejo sempre no cinema. Nestes momentos, em que o mundo bem podia ser uma comédia romântica, é impossível não sorrir. E e a mesma música de ontem, agora numa outra cadência, parece alimentar o sonho.

Ao Sul by Isabel Silvestre on Grooveshark

Sina

Tarde, altas horas numa universidade vazia de gente e de tudo, resisto ao sono e às saudades. O silêncio pesa, mas o silêncio da casa vazia pesa muito mais. Quase tanto como os sinais que materializaste e com que esbarro todos os dias.
Paro um pouco e aventuro-me pelos corredores escuros. Tento aliviar a pressão que cresce todos os dias, as montanhas de papéis a rivalizar com o Evereste, as solicitações constantes e as idiossincrasias com que temos que elegantemente lidar. No ar puro do jardim interior, onde me deixo espraiar um pouco, ouço bater do coração, descompassado, pensando em ti. Escapa-se um lágrima, ou várias. Hoje não resisto. Tudo é tão evidente afinal. Eloquências? Desnecessárias. Simplesmente não me sais da cabeça.

Ao sul by Antonio Zambujo on Grooveshark